Poema
à minha mãe
Karina
Rabinovitz
Há
no ar
um acúmulo de anos
guardados no saco verde.
No canto do quarto.
Um corredor de paisagens diversas,
pessoas mortas, momentos mortos.
Há no ar
uma saudade permanente
de um dia chuvoso que não aconteceu;
quando um dia na vida
significa mais idade
e a comemoração
é um passeio sem fim, à beira mar.
Com os pés molhados,
voltar ao corredor de paisagens passadas
com os olhos arregalados
e aliviar-se de pertencer a todos os lados.
No ar
a grande experiência de cabelos brancos,
não tão alvos,
pela sujeira da mente e dos tempos...
mas um banho seguro
num aquário com peixinhos azuis;
uma conspiração dos astros
e a respiração do céu
no nascimento do ser sobre a ação.
No ar
o sopro do passeio
de uma alma que passeia a anos
por circulações diversas.
A construção de uma sobrefísica
que esteja acima do peso e necessidade
dos corpos, rancores e feridas.
E a reconstrução da física,
com estrelas aniversariando
e corpos que anseiam
e produzem carícias, essencialmente.
No ar
os passos contentes
de quem carrega um saco verde,
que ficava no canto de um quarto;
a alegria
de quem despeja e se refaz.
Salvador, 22/01/1998
Mãe, feliz aniversário!
Um beijo, eu TE AMO!
Karina Rabinovitz
Formatado por Orinho


