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ODE
À NOITE
Jan
Muá
Sou
a dama que te empolga
Solene e misteriosa
Nunca desmentida
Em meu manto negro funéreo
Acoberto no abismo as muitas vozes
Do além sem expressão
Sou o que não vês
No algures não deslumbrado
Do silêncio que nos separa
Sou a tua expectativa e o teu medo
No abismo escondido
Em teus passos vacilantes
Sou no aquém da lua
A sombra da tremeluscência longínqua
E da dormência sem sinais
Na lamparina oculta da tua percepção
Sou tudo e todos no céu da tua terra
Ante latidos de caninos pastores
Empolgados no faro de pernilongos
Voadores torturadores
Sou o non-sense do brilho dos teus olhos
Cegos na penumbra de um sol que não tens
Sou a rasgada estrada da rota dos aviões
Pirilampos mecânicos num céu retraído
Sou todos os carros parados surdamente silentes
De motores desligados sem freio
Sou a poesia solitária deste eu que não negocio
Que te obriga a prolongar a atenção
Para não morreres nas mãos absurdas de um destino
Em que não confias
Sou a dona do território onde ficas meu prisioneiro
Até que saibas pelo cansaço
Que teus lençóis são meu corpo doado
E que meus braços se tornaram o infalível destino
Das pequenas criaturas rebeldes
Que não se entregam voluntariamente ao meu beijo
Imprescindível
Sou o materno seio da evidência e dependência dos seres
Aninhados
Acobertados por Morfeu
Sou eu e você em congresso universal
Mordoma das mil umbrosas cenas de orgia franca
Entre espíritos apagados
Sou o intervalo mirabolante
Da nave adormecida
Que trafega obstinada
Na grande rota das mentes aturdidas
Sou a rainha concedida
Da surpreendida realidade dos homens carentes
Sou a quieta comunhão das primitivas
Sensações do despojo de enganosos andrajos
De seres alienados em horas imprecisas e incertas
Sou a peregrina poderosa
Na quieta espera de todos no palácio comum
Sou tua mãe piedosa
Que te acarinha no seio da liberdade
Mãe que te conclama para a poesia da vida
No abraço quente do amor sonhado
Sou o teu grito libertário
Tua vida tua canção
Tua voz tua paixão
Sou o espaço marginal
De teus sonhos
Que te renovarão a vida
Por isso
Estou vindo
Ao encontro do teu desejo
Para enredar-te no manto suave de meus braços
Na embriagada expectativa de tua ansiedade.
©Jan Muá
Brasília
12 de agosto de 1994


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